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Jul. 9th, 2015 | 07:40 pm

Digitalizar0001


As ciprestes que vejo na estação de comboios da Fertagus em Penalva, do lado esquerdo na ida e do lado direito na volta, e os esqueletos de algumas carruagens de comboios da CP, do lado direito na ida e do lado esquerdo na volta como prólogos e epílogos entre Maio e Novembro de 2014.

Foros de Amora - Fogueteiro - Coina - Penalva - Pinhal Novo. Ficar meia hora no Pinhal Novo à espera do outro comboio da CP. Quanto livros foram lidos nesses meses, nessa meia hora, nessas viagens de comboio.

Pinhal Novo - Penteado - Moita - Alhos Vedros.

Unidade de Cuidados Continuados, área dos Cuidados Paliativos. Dar a carta de condução umas vezes, dar o cartão do cidadão noutras e receber em troca o cartão de visita roxo que dizia "Familiar". Roxo para os paliativos, verde e amarelo, se não me engano, para os Cuidados de Média e Longa Duração.

De acordo com a Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos:

Os cuidados paliativos definem-se como uma resposta activa aos problemas decorrentes da doença prolongada, incurável e progressiva, na tentativa de prevenir o sofrimento que ela gera e de proporcionar a máxima qualidade de vida possível a estes doentes e suas famílias. São cuidados de saúde activos, rigorosos, que combinam ciência e humanismo.

Aquele cartão roxo que devia andar comigo de forma vísivel, com o 11 que correspondia ao número do quarto onde esteve a minha mãe durante pouco mais de seis meses, identificava-me como familiar de alguém com uma doença prolongada, incurável e progressiva. Uma pessoa que tinha vindo para o quarto 11 para morrer. Chegada aqui, depois de ano e meio em hospitais, já não havia mais rodriguinhos nem eufemismos. Já não havia a conversa de "lutar", já não havia outra possibilidade que não fosse morrer.

Os Cuidados Paliativos eram basicamente um corredor, com quartos dos dois lados, com uma placa do lado de fora desses quartos que tinha o nome da pessoa que lá estava. Nomes que se confundiam uns com os outros, nomes que pareciam fazer um jogo de escondidas de semana para semana. Num fim de semana estava o "José Barbosa" ali e no fim de semana seguinte já não estava. No fim de semana a seguir a esse tinha outro ocupante. Tentei fixar alguns nomes mas tornava-se difícil.

Num dia vinha a carrinha funerária e as auxiliares fechavam as persianas do quarto 11. Não sei se era para eu não ver ou para a minha mãe não ver, ou ambas. No estado mental em que a minha mãe estava, ou melhor, já não estava, não sei que diferença faria. Não sei em que momento exacto a lucidez da minha mãe a abandonou e ela passou a viver num mundo só dela mas julgo que aí não havia vida, morte, fosse o que fosse. Não sei se essa lucidez a abandonou antes de conseguir perceber o que estava a fazer naquele corredor, à espera do fim. Não sei se a troca de cadeiras nos outros quartos estava no seu radar. Não sei nada.

A morte em toda a parte, em todo o lado, naquele corredor. E fazia-se anunciar com um cartão roxo. E eu via as outras pessoas passarem por mim, erámos espelhos uns dos outros, com cartões iguais mas com outra numeração. Todos nós na incerteza de nos voltarmos a ver. Tudo dependia da vida ou morte de quem vinhamos visitar.

Mesmo assim, mesmo depois de ano e meio dentro e fora de hospitais, dos Cuidados Continuados de Longa Duração primeiro, dos Cuidados Paliativos depois; depois de tudo isso ainda fui apanhada completamente desprevenida quando a morte deixou de parte o suspense e decidiu que tinha chegado a altura. Li mais tarde na certidão de óbito que a minha mãe morreu às 18:40, naquela terça feira, dia 2 de Dezembro, pouco depois de eu chegar a casa e ligar a televisão e o computador, depois de me pôr na conversa no Facebook. A minha mãe morreu e eu não estava lá. A  minha mãe morreu e eu estava a comer bolachas, a rir-me com alguma parvoíce que hoje mal me lembro. O telefone tocou, a enfermeira disse qualquer coisa sobre o estado da minha mãe se ter agravado subitamente e que tinha falecido.

A verdade é que desde então que não sei onde me sentar na minha vida. Não sou filha de ninguém agora. A minha mãe desapareceu.

Sete meses e nunca mais voltei ao cemitério. Às vezes sinto-me aquela filha que vai adiando a visita à mãe que vive longe. Mas que visita é esta às cinzas - literalmente - da minha mãe, que foi cremada?

Existem muitos dias em que continuo a ver-me dentro do comboio, a passar em Penalva e a sentir que a morte está mesmo ali, quase visível, cada vez que reparava nas ciprestes e as tentava ignorar. Um dia vais voltar a ver-nos.

No cemitério vejo as mesmas árvores. Tinham razão.






isto foi escrito há cerca de três meses, limitei-me a actualizar o número de meses que continuo sem ir ao cemitério e pouco mais...
tenho dias muito, muito bons em que sei bem o valor de estar viva e bem, mas depois também tenho os dias muito difíceis. ela falta-me em todos.

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Comments {21}

Magda or Maggie

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from: m_for_maggie
date: Jul. 9th, 2015 08:48 pm (UTC)
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Essa foto é amor puro, mexe mto comigo.

E volto a dizer, eras uma bebé deliciosa, que coisinha adorável! :D

Tu tb me fazes falta todos os dias :)

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vaso vazio

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from: apontamento
date: Jul. 9th, 2015 09:32 pm (UTC)
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:)) também gosto tanto. é daquelas coisas que me deixam melhor, quando olho para fotos nossas e ela tem aquela cara como se eu fosse a coisa mais incrível de sempre. aquele amor que só uma mãe ou um pai sentem.

:D obrigada!

oh :) tu tb me fazes falta, acredita! *

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Labrax

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from: labrax
date: Jul. 9th, 2015 10:44 pm (UTC)
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Nem sei o que escrever. Percebe-se bem nas tuas palavras a agonia da dor. Não serve de consolo mas é um texto lindo no sentimento que transmite, puro amor.

Força e dizer isto é um lugar-comum mas há que seguir, dia após dia.

Abraço forte.

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vaso vazio

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from: apontamento
date: Jul. 10th, 2015 09:12 pm (UTC)
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:) obrigada pelas palavras, significam muito.

outro abraço.

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miguel

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from: innersmile
date: Jul. 10th, 2015 04:45 pm (UTC)
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obrigado.
um beijo grande.

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vaso vazio

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from: apontamento
date: Jul. 10th, 2015 09:12 pm (UTC)
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:) obrigada eu, também. beijo grande de volta

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_soft_

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from: _soft_
date: Jul. 10th, 2015 09:00 pm (UTC)
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Acredita que não iria fazer diferença estares lá...
A alma quer-se livre para poder partir. Sem querer fazemos força para a prender a um sítio onde já não pertence.
Melhor assim, por muito que penses que não. Foi quando não estavas a pensar nela, quando a libertaste, que partiu.

Um beijo muito grande para ti (que não há palavras que confortem...)

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vaso vazio

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from: apontamento
date: Jul. 10th, 2015 09:18 pm (UTC)
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é o que muitas pessoas me dizem, que foi melhor assim. hoje já não me massacro tanto mas na altura custou muito pensar que podia ter lá estado com ela... felizmente as pessoas (enfermeiras, auxiliares) que trabalham lá estiveram com ela, não morreu sozinha. e disseram-me que quando chegou a altura não foi com sofrimento, foi em paz. não sei se o disseram para me descansar mas quero acreditar que foi mesmo verdade.

beijo grande para ti tb :) *

Edited at 2015-07-10 09:19 pm (UTC)

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Magda or Maggie

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from: m_for_maggie
date: Jul. 11th, 2015 01:03 pm (UTC)
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Muito bom comentário!

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dias_uteis

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from: dias_uteis
date: Jul. 11th, 2015 10:51 am (UTC)
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Não sei o que te dizer. Deixaste-te sem palavras e apenas com lágrimas.
Apesar de concordar com a Elsa (e quanto menos falta ela sentir que faz cá mais depressa encontra o seu caminho) custa... e custa como o caraças. Vivi com esse sentimento seis anos até perceber que tinha de ser assim e eu não poderia ter feito nada de diferente.
Fizeste o que podia ser feito e tu estiveste sempre com a tua mãe e ela contigo. A nossa parte mais importante não é a física mas é dela que lamentamos a perda e não devia ser tanto assim.

Um dia vou dar-te um abraço. *

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vaso vazio

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from: apontamento
date: Jul. 11th, 2015 03:10 pm (UTC)
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há alturas em que eu sei (conscientemente) que ela agora está em paz, seja onde for. e que o sofrimento era tanto aqui que ela só não foi mais cedo porque de alguma maneira sentia que fazia cá falta. a morte libertou-a.

na manhã de dia 3, quando eu fui com um dos meus melhores amigos ao Centro tratar das burocracias, uma das enfermeiras perguntou-me se eu queria ver o corpo, que estava na casa mortuária. na altura hesitei mas acabei por ir e ainda bem que o fiz porque (e esse meu amigo comentou o mesmo) ela estava com um sorriso na cara. sabes aqueles sorrisos leves das pessoas quando estão a dormir em paz ou quando estão num estado profundo de harmonia/paz de espírito? confortou-me imenso porque senti que de alguma forma o corpo em que ela estava a "prendia" e a partir dali isso ia deixar de acontecer. mas isto sou eu nos dias em que aceito e em que vejo um propósito maior e em que sinto que ela está e estará sempre comigo. nos dias difíceis sinto que é o egoísmo a falar mais alto, a saudade, o querer tocar nela, falar com ela... no fundo eu sei que a morte não é o pior que lhe aconteceu, a doença e o sofrimento sim.

escrever sempre foi uma forma de escape na minha vida e a única maneira de expressar muita coisa e tem-me ajudado ao longo da vida. muita bagagem vai ficando mais leve :)

esse abraço será muito bem vindo :))

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Saphyra

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from: oosha
date: Jul. 12th, 2015 12:13 pm (UTC)
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eras uma bebé bem gira sim ;)
a verdade é que ela estava contigo no pensamento e, mais importante, no teu coração. não interessa se não estavas fisicamente com ela quando o momento chegou, ou se não vais ao cemitério. o luto faz-se de maneiras diversas. continuas a pensar nela, a estar com ela no pensamento... e tenho a certeza que ela contigo.
beijo grande

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from: apontamento
date: Jul. 20th, 2015 08:15 pm (UTC)
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:))

obrigada*

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Sereia

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from: cristinapereira
date: Jul. 13th, 2015 11:16 pm (UTC)
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As circunstâncias entre a morte da tua mãe e a morte da minha foram muito diferentes. A tua mãe sofreu bem mais. Mas a dor q descreves eu tb a sinto... :(

A minha morreu e eu tb não estava lá... tinha estado nos hospital na noite anterior e não consegui ver os seus olhos pq nesse dia ela não os abriu...

Eu vou muitas vezes ao cemitério (sempre q posso) e "converso" com ela. Tem dias q sofro mais do q outros (como tu), mas desde q ela morreu tudo mudou dentro de mim... Questiono tudo sobre a vida, o q faço cá, a falta q ela me faz... é muito difícil... :(((

Beijinho*

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vaso vazio

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from: apontamento
date: Jul. 20th, 2015 08:18 pm (UTC)
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sim, surgem muitas perguntas... os dias bons são todos aqueles em que só me lembro do bom que foi tê-la comigo e consigo "esquecer" as circunstâncias, mas depois existem os outros... a vida é mesmo assim.

muita força para ti tb, bjinho grande

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a lost photograph

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from: grown_on_trees
date: Jul. 19th, 2015 04:09 am (UTC)
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oh querida, um beijinho imenso em ti. *

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vaso vazio

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from: apontamento
date: Jul. 20th, 2015 08:16 pm (UTC)
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outro para ti :*

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impressões

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from: throughmywords_
date: Jul. 22nd, 2015 06:03 pm (UTC)
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um beijinho do tamanho do mundo *

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blondecleopatra

(no subject)

from: blondecleopatra
date: Aug. 26th, 2015 09:57 pm (UTC)
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fiquei sem palavras. um texto cheio de dor mas cheio de amor também. uma linda homenagem. à falta de palavras, um abraço forte*

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vaso vazio

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from: apontamento
date: Sep. 1st, 2015 09:56 pm (UTC)
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obrigada :) outro para ti *

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charlotte_gray

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from: charlotte_gray
date: Nov. 22nd, 2015 04:08 pm (UTC)
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Um grande, grande beijinho* Foto maravilhosa e o texto é puro sentimento, só um grande Amor pode produzir algo assim e acredito - sei - que, para além da dor (indizível, imensurável), é esse amor que te constroi na pessoa que és e que te vai ajudar a viver ainda muitas e muitas alegrias (e a transformar a dor em saudade). Um abraço forte*

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